Uma empresa de quase R$ 2 bilhões com dois negócios no prejuízo
Em setembro de 2026, a Exame contou a história do Grupo MIP, de Belo Horizonte. A empresa nasceu em 1961 montando a usina da Usiminas, em Ipatinga, e hoje faz montagem industrial para clientes como Vale, Petrobras e Suzano.
O balanço de 2025 da MIP Holding, publicado em abril de 2026, confirma o tamanho: receita bruta de R$ 1,969 bilhão, 28,92% acima do ano anterior, e lucro líquido de R$ 310 milhões.
Só que o grupo tem quatro empresas, e o mesmo balanço mostra o resultado de cada uma em 2025:
EmpresaO que fazResultado em 2025MIP EngenhariaMontagem industrial e obras eletromecânicasLucro de R$ 340,7 milhõesMIP ConstrutoraPrédios residenciais e comerciais em Minas GeraisLucro de R$ 60,2 milhõesMultilift LogísticaOperação no Porto de Vitória e terminaisPrejuízo de R$ 12,3 milhõesMIP InvestimentosSaneamento e energia solarPrejuízo de R$ 13,4 milhões
Fonte: demonstrações financeiras da MIP Holding de 31/12/2025, nota 11.3.
Duas empresas ganharam dinheiro e duas perderam. Quem lê só o número de R$ 1,969 bilhão não fica sabendo disso.
Este artigo usa o caso para tratar de um assunto que aparece em toda locadora: o faturamento do mês junta máquinas que se pagam com máquinas que custam mais do que rendem.
O que o total do mês deixa de mostrar
No fechamento, a conta mais comum é somar tudo o que entrou de locação. O número sobe, o mês foi bom. O número cai, o mês foi ruim.
Essa soma coloca na mesma linha a betoneira que rodou trinta dias e o rompedor que passou o mês encostado no pátio. Coloca também o andaime, que quase não vai para a oficina, ao lado da miniescavadeira, que fatura bem e gasta bem em manutenção.
O Grupo MIP tem a mesma situação em escala maior. Segundo a Exame, a engenharia responde por R$ 1,639 bilhão da receita e a construtora por R$ 198 milhões, oito vezes menos. Juntando esses números com os do balanço, a construtora fica com perto de 30 centavos de lucro a cada real faturado, e a engenharia com perto de 21. A empresa menor rende mais por real.
O diretor financeiro do grupo, Gustavo Vargas, resumiu isso à Exame: "Na construtora, o foco é a margem, não o tamanho".
Na frota acontece igual. A linha que mais fatura nem sempre é a que mais deixa dinheiro no caixa depois de manutenção, parcela e dias parada.
Três decisões da MIP que servem para a locadora
1. Calcular o preço para dar lucro
A engenharia pesada trabalha com contrato grande e prazo longo. Um orçamento errado pode consumir o resultado de várias obras. Por isso a MIP diz que olha preço, prazo, garantia e risco antes de aceitar um serviço.
Vargas disse à Exame: "Não pegamos uma obra de qualquer jeito nem fazemos orçamento só para ganhar o contrato".
No balcão da locadora, a situação parecida é o cliente que pede desconto para fechar na hora. Baixar a diária resolve aquele contrato, só que a máquina se desgasta do mesmo jeito e a manutenção dela chega pelo preço cheio. Antes de dar o desconto, vale saber quanto aquela linha de equipamento precisa faturar por mês para pagar parcela, oficina e a troca da máquina lá na frente.
2. Dar um tratamento para cada parte do negócio
A MIP não aplicou a mesma receita às duas empresas que perderam dinheiro.
Na logística, o balanço registra que a Multilift renovou em 2025 o contrato de exploração no Porto de Vitória até 2042. A holding também colocou cerca de R$ 40 milhões de capital novo na empresa durante o ano. O grupo está apostando que esse negócio se paga no longo prazo.
Na energia solar, o caminho foi o contrário. Segundo a Exame, as regras de incentivo e o mercado mudaram, as usinas renderam menos que o previsto e o grupo decidiu vender esses ativos.
Para o locador, a leitura é que máquina no prejuízo pede uma decisão própria. Às vezes o problema é a praça, e a máquina que não sai numa cidade tem procura em outra. Às vezes é o preço, que foi definido há anos e nunca mais foi revisto. E às vezes a máquina simplesmente não tem mais demanda na sua região, e o melhor é vender enquanto ela ainda vale alguma coisa.
3. Decidir a hora de vender
Essa é a decisão mais difícil das três. A usina solar da MIP estava pronta, funcionando e gerando energia. O balanço de 2025 registra inclusive uma usina nova, ligada naquele ano em Formiga, Minas Gerais. Mesmo assim, meses depois o diretor financeiro já falava em venda.
Vargas explicou o critério à Exame: "Não pensamos em crescimento a qualquer custo. Pensamos em perenidade, lucratividade e margem".
No pátio, a máquina que já está paga engana do mesmo jeito. Como não tem mais parcela, parece que qualquer locação é lucro. Só que ela ocupa espaço, pede manutenção, paga seguro e perde valor de revenda a cada ano parada.
Quanto a máquina parada custa por mês no seu pátio?
Diga o que mais para na sua frota e a ODuo devolve por onde começar.
Como fazer essa separação na locadora
Você não precisa de sistema caro para começar. Precisa de quatro números por linha de equipamento, dos últimos três meses:
Quanto a linha faturou. Some as locações de todas as máquinas daquele tipo.
Quanto ela gastou. Manutenção, peças, transporte e a parcela do financiamento, se ainda houver.
Quantos dias ela ficou parada. Conte os dias em que as máquinas daquele tipo estavam disponíveis e não saíram.
Quanto sobrou. O primeiro número menos o segundo.
Com isso em mãos, faça duas listas: as linhas em ordem de faturamento e as linhas em ordem do que sobrou. Se a ordem das duas listas for diferente, você já sabe onde olhar primeiro.
Depois, para cada linha que aparece mal na segunda lista, a pergunta é uma das três que a MIP se fez: o preço está certo, a máquina está no lugar certo, ou está na hora de vender?
Uma observação honesta: três meses é pouco para linhas muito sazonais. Se a sua praça tem época de chuva que para obra, compare com o mesmo período do ano anterior antes de vender qualquer coisa.
O que este caso não prova
O Grupo MIP é uma empreiteira de montagem industrial, com contratos de centenas de milhões. A sua locadora é outro negócio, de outro tamanho. Os números da MIP não dizem nada sobre o preço da sua diária.
O que dá para levar do caso é o hábito de olhar cada parte do negócio separada e tomar uma decisão para cada uma. Isso funciona tanto num grupo de quatro empresas quanto numa frota de vinte máquinas.
Também vale registrar que a venda das usinas solares é uma decisão relatada pelo diretor financeiro à Exame. Até a publicação deste artigo, a gente não encontrou comunicado de venda concluída.
Por onde começar
A ODuo atende só locadoras de máquinas e equipamentos, e montou duas ferramentas gratuitas que ajudam nessa conta.
O Autodiagnóstico da Locadora é o primeiro passo para conferir como está a sua operação.
Se você já sabe que tem máquina encostada e quer colocar isso em reais, a Calculadora de Custo de Frota Parada mostra quanto ela deixa de faturar por mês.
As duas são gratuitas.



